27.10.09

PELO SONHO É QUE VAMOS



"Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

                                Basta a fé no que temos.
                                Basta a esperança naquilo
                                que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
                                                      Chegamos? Não chegamos?
                                                       Partimos. Vamos. Somos."

 (Sebastião da Gama, Pelo sonho é que vamos)

O DOM



"Existe uma maneira tão graciosa de negar o que não se pode dar, que a negação causa tanto prazer como o próprio dom."

(Santa Teresinha do Menino Jesus, História de uma alma, IX, 36)

17.10.09

DUNAS ALTAS


As dunas no deserto do Namibe que bordejam o Atlântico são altas, muito altas, e oferecem miríades formas que ondulam com o  vento e  marés, num lento jogo de sombras e de luz, tenuamente colorido, quase transparente e etéreo, propício aos vários pontos de vista que sobre elas se registam, muitos deles envoltos em poesia, em deslumbramento ou em remotos imaginários que a interpretação de cada olhar redescobre.

Comum a todos, a beleza indescritível de uma costa quase virgem, a emoção de tentar chegar, antes da maré subir, a cumes feitos de areia que se deslocam incessantemente, como que crescendo em fuga pelo nosso estranho chegar a esse lugar sublime e intocável.

14.10.09

"UMA CONVERSA SEM PROVÉRBIO NÃO ANIMA"



"A zona sobre qual me debruço é a que vai do Libolo a Kibala, abrangendo Kilenda, Ebo, Gabela, Mussende e partes do Uaco-Kungo, Kassongue entre outros espaços da Província do Kuanza-Sul." Luciano Canhanga


Caro Luciano,
Gostei muito dos temas dos seus blogues e permita-me reproduzir um trecho do que escreveu no seu ENSAIOS...COMUNICAÇÃO & HISTÓRIA:

"A par da língua portuguesa que é o símbolo de identidade angolana e pilar basilar para a construção da Nação, as línguas locais (também chamadas de nacionais) e seus sub-grupos ou dialectos devem ser objecto de investigação, divulgação e ensino, de modo a perpetuá-las e ocuparem o seu lugar no desenvolvimento socio-económico, político e cultural de Angola.
Devemos entender que “um povo sem cultura não é um povo” e uma cultura funda-se num veículo de transmissão de ideias, sentimentos, crenças, ritos e atitudes, ou seja, uma língua.
E como dita a minha tradição “kaiete lia sapo caioto”, eis aqui a minha contribuição.
Ngoia: Kaiete lia sapo Kaioto.
Tradução literal para português: uma conversa sem provérbio não anima.
Sentido pedagógico: uma exposição sem exemplos não convence. Ou seja, toda exposição tem de ser seguida de exemplos. Não basta dizer, é preciso demonstrar."
 Por: Luciano Canhanga /Fev. 2005
Publicada por MESU MA JIKUKA

 Fica assim lançado o desafio, com o seu contributo, retirado de Mesu Ma Jikuka (Luciano Canhanga), para novos comentários sobre um rico e apropriado tema:
UMA CONVERSA SEM PROVÉRBIO NÃO ANIMA.


10.10.09

9.10.09

VER

Quantas vezes passamos pelas coisas sem as vermos? Que pressa temos das nossas urgências, que por vezes nos impede de darmos atenção às coisas simples da vida? Nós que pretendemos investigar e ensinar sobre os fenómenos da comunicação, que capacidade mantemos de estarmos ligados à realidade total que nos envolve, e não apenas à que nos agrada? Quem nos segue? Quem nos ouve? Quem nos lê? Talvez que a arte nos possa a ajudar a mantermos um entendimento mais abrangente do mundo em que vivemos, porque da percepção única do artista provém uma realidade para nós escondida. Um poema do José Fanha, do seu livro “Elogio dos peixes das pedras e dos simples”, pode ilustrar essa tentativa. A SENHORA CONCEIÇÃO A senhora Conceição é um pássaro remoto um dinossauro espantado incapaz de usar sapatos por medida. A senhora Conceição tem muita dificuldade em ir a pé ao correio. Tem duas galinhas uma videira pequena agriões batatas e uma dor nas costas já faz para cima de dez anos. A senhora Conceição teve marido e três filhos todos vivos benza-os Deus A senhora Conceição persiste de roupa preta em volta dos coentros e dos cravos e faz de cada couve galega uma bandeira na sua Sierra Maestra de 4 por 5 metros a cheirar a rosmaninho. A senhora Conceição talvez não entenda nada do que eu digo mas é para ela que eu digo e penso para que o seu sorriso bom frutifique à margem da usura.