31.12.09

POR KAIROS EM KRONOS!

UM TEMPO QUE PASSOU
Vou
uma vez mais
correr atrás
de todo o meu tempo perdido
quem sabe, está guardado
num relógio escondido por quem
nem avalia o tempo que tem.

Ou
alguém o achou
examinou
julgou um tempo sem sentido
quem sabe, foi usado
e está arrependido o ladrão
que andou vivendo com meu quinhão.

Ou dorme num arquivo
um pedaço de vida
a vida, a vida que eu não gozei
eu não respirei
eu não existia.

Mas eu estava vivo
vivo, vivo
o tempo escorreu
o tempo era meu
e apenas queria
haver de volta
cada minuto que passou sem mim.

Sim
encontro enfim
iguais a mim
outras pessoas aturdidas
descubro que são muitas
as horas dessas vidas que estão
talvez postas em grande leilão.

São
mais de um milhão
uma legião
um carrilhão de horas vivas
quem sabe, dobram juntas
as dores colectivas, quiçá
no canto mais pungente que há.

Ou dançam numa torre
as nossas sobrevidas
vidas, vidas
a se encantar
a se combinar
em vidas futuras

Enquanto o vinho corre, corre, corre
morrem de rir
mas morrem de rir
naquelas alturas
pois sabem que não volta jamais
um tempo que passou.

Poema: Chico Buarque
Música: Sérgio Godinho, Um tempo que passou

In: "coincidências" 1983
Luís Alçada

30.12.09

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
FERNANDO PESSOA, in Mensagem

MULTICULTURALIDADES - EM TONS DE AÇAFRÃO

É difícil falar de Mumbai (Bombaim) em poucas palavras e do meu ponto de vista. Com uma taxa de alfabetização a rondar os 87% , é uma cidade espantosa nos seus contrastes e cosmopolitismo, onde a panóplia e simbiose de culturas, línguas e religiões é característica dominante. Como, aliás, acontece em toda a Índia.
Com cerca de 14 milhões de habitantes, sofre dos mesmos problemas que afligem as grandes metrópoles. Um crescimento muito rápido e um desenvolvimento acentuado  torna-a desordenada e sem capacidade de resposta para acudir ao consequente aumento de população e suprir as respectivas necessidades básicas e de infraestruturas. O fausto e a miséria caminham lado a lado mas, estranhamente ou talvez não, não se vislumbra  revolta nem evidenciada tristeza nos rostos daqueles que a deveriam reflectir, antes uma serenidade e resignação que confundem e comovem. É uma cidade fervilhante em todas as suas dimensões, remetendo-nos para a reflexão e silêncio no meio da preplexidade e da confusão ordenada.








INOVAÇÃO ORGANIZACIONAL E DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO

Já uma vez tinha ficado espantado pelo facto dos oradores de um congresso de empresários nem sequer terem percebido uma pergunta que tinha feito acerca da prioridade que deveria ser dada á colaboração entre a gestão e os empregados. Mas foi através da participação num projecto europeu, sobre boas práticas de criatividade e inovação em indústrias de alta tecnologia, que tomei maior consciência do desfasamento em que nos encontramos em relação ao resto do mundo industrializado. Não por causa dos avanços científicos e tecnológicos mas sim pelas alterações que tiveram de ser feitas nas políticas de investigação e desenvolvimento, assentes nos financiamentos e nas indústrias de alta tecnologia, que ficaram seriamente comprometidas com a crise financeira. Até a política europeia de inovação sofreu alterações consideráveis, estando já a ser preparadas novas mudanças na Estratégia de Lisboa pois, apesar de terem concentrando os financiamentos nas indústrias de alta tecnologia, o retorno foi inferior a 10% do PIB, nos países da CE. Com efeito e apesar de todos os investimentos, os países ocidentais estão a ser ultrapassados por outros, com menos dinheiro mas com uma mão-de-obra especializada muito mais barata, como a Coreia, Taiwan ou Singapura e, num futuro próximo, poderão vir a ser ultrapassados por outros com mais dinheiro, como os países produtores de petróleo. Por cá, habituados a um discurso sobre inovação que assenta, quase que em exclusivo, em financiamentos, sejam eles de capitais de risco, de I&D, fundos de investimento ou em projectos de base tecnológica, continuamos sem nada fazer sobre a inovação a partir do desenvolvimento da força de trabalho, excepto as habituais menções à educação e qualificação. E mesmo perante a evidência da necessidade de reduzir drasticamente os investimentos de retorno incerto, o discurso oficial mantém-se tão firme como a continuidade do endividamento do Estado. Assim, a acção da Associação Portuguesa de Criatividade e Inovação (APGICO) continuará a fazer tentativas no sentido de chamar a atenção para a necessidade de conseguir retirar mais rendimento do nosso maior (e único) tesouro, que são as pessoas. Essas mesmas pessoas que se tornaram famosas pela sua capacidade de improviso, gosto pela aventura e satisfação plena das maiores exigências de qualidade e produtividade, desde que trabalhando em sistemas de gestão capazes de canalizar os seus talentos numa direcção rentável.

28.12.09

EM JEITO DE REFLEXÃO

Quando o melhor do mundo são as pessoas,
Quando a harmonia na diversidade é riqueza, descoberta e paixão,
Quando a miríade de tons e cores, rostos e sorrisos, trajes e dialectos, nos enchem de um doce conforto interior e nos estimula a criatividade e o sentimento,
O mundo será sempre melhor, mais rico, mais deslumbrante, mais belo, mais humano, como coros em catedrais, cantando o sublime a uma só voz.
Em jeito de reflexão, um 2010 com e pelas pessoas.
Com e pela Humanidade.
E convosco, por um mundo melhor.

24.12.09

NATAL NO CORAÇÃO

 

Agarrei num imbondeiro
E cobri-o de sisal.
Pareciam fios de ouro
Num pinheiro de Natal.
Em vez de bolas brilhantes
E de coroas de azevinho,
Pendurei no imbondeiro
Pedaços do meu carinho.
Depois procurei uma estrela
Que brilhasse, cintilante.
E no meu belo imbondeiro
Coloquei naquele instante
O olhar de um menino,
Um sorriso de criança,
Que luzia pequenino
Carregado de esperança.
Foi então que descobri
Que sob o meu imbondeiro,
Um presépio construi
Sem figuras, bem real.
É feito de muita cor,
Não tem tempo nem lugar
É um Presépio de Amor
Símbolo do meu Natal.
Para os meus amigos com o Natal no coração sempre presente e que sabem construir com o muito ou pouco que têm presépios diários de Humanidade, um abraço de amizade com votos de que 2010 seja um ano sublime em todas as dimensões das vossas Vidas.

4.12.09

A Welwitchia e o Chiado

KImdaMagna perguntou-me, nos comentários a MOMENTOS INSTANTES, "que ligação entre o Chiado e a Welwitchia?"

Respondi que "talvez haja alguma ligação, quem sabe? O Chiado é um dos bairros mais emblemáticos e com mais história da cidade de Lisboa. A Welwitschia Mirabilis é uma das plantas mais emblemáticas de Angola. Tal como o Chiado, tem características únicas e só existe no deserto do Namibe, em Angola e na Namíbia.O Chiado só existe em Lisboa.
Há sempre uma ligação entre as coisas, as pessoas, os seres vivos. É uma questão de querer encontrar o elo."

Mas a minha  ligação pessoal Welwitchia-Chiado, é feita de elos de vida e fica muito para além de qualquer dado objectivo, histórico, científico ou geográfico.
É feita de circunstâncias, de oportunidades, de experiências que se nos oferecem e que se tornam únicas pelo momento, pelo instante, pelo espaço e pelo tempo como as vivemos; pelo modo como estamos permeáveis e absorevemos as sensações e as emoções que a descoberta, o espanto, o conhecimento e o belo provocam em nós e em nós ficam registadas para sempre, algo muito difícil de explicar mas que se sente e faz vibrar cá dentro, só de pensar.

As fotos, as palavras, não chegam para agarrar esses tais momentos-instantes que vivi no café A Brasileira , no Chiado. Ecrevi há quatro anos aquele apontamento - o sentir hoje é igual. Com a diferença de que não voltei  lá a entrar. Prefiro ficar com a memória intocável e confortável de tempos, como digo, que já não são.
A materialização em fotos ou escritos dos nossos sentimentos, dos  nossos sentires, é sempre incompleta.A tentativa de se tentar agarrar esses estados de alma vivenciados em outros contextos é, por vezes, dolorosa e desilude.

Por isso, há sempre espaços para novos pontos de vista.

Alguns, não os quero intencionalmente perder ou rever. Não por conservadorismo, nostalgia ou sentimentalismo. Mas porque me enriqueceram como pessoa e desafiam-me, por isso, a ficar sempre atenta e aberta  ao mundo no seu todo, a pensar e reflectir sobre ele, a crescer mas com raízes firmes, com referenciais que me ajudam a alimentar e expandir a alma e o conhecimento, mas sem perder o elo que me liga a mim mesma , a minha identidade.

Deste ponto de vista, o elo comum entre o Namibe, onde radica a Welwitivhia, e o Chiado, onde radica A Brasileira, está no facto de se tratarem de locais que não me deixaram indiferente e que despertam de alguma forma o melhor que há em mim, como tantos outros que vou rememorando e percorrendo por estas páginas avulsas. Numa espécie de contradição interna entre o que sei não conseguir transmitir e o que sei valer a pena objectivar, recordar ou repensar, por muito incompleto que seja o testemunho, a foto, o olhar.

Aqui fica a interpelação e o desafio:
Que ligação entre a Welwitchia (Namibe) o Chiado (Lisboa)?


GOA e DAMÃO - Memória de afectos, cultura de memórias

Diz-se que a cultura é aquilo que resta depois de esquecermos tudo o que aprendemos.
Pois bem, no preciso momento em que faz quatro anos que andei por terras da Índia, o que ficou para além dos lugares-comuns dos roteiros turísticos? O que me marcou e  não esperava nem está escrito nos folhetos publicitários de viagens? O que me ficou na memória e no coração, que não conste de livros a que terei acesso se quiser algo recordar?
Primeiro, foi um estranho sentimento de conforto familiar quando cheguei ao aeroporto de Goa. Não me senti estrangeira.
Os sorrisos, o imenso colorido de flores e cores, os aromas e a língua portuguesa falada com fluência, a par do Inglês, Hindi e Conkani, confundiu-me agradavelmente. Mas, tudo bem. Até estava acompanhada pelo Padre António Colimão, nascido em Damão. Daí, talvez, a explicação para a proximidade familiar sentida, quer da língua quer dos seus parentes e amigos que nos receberam com uma amabilidade de excepção. Mas terá sido só por essa razão?
Foi então que me veio à memória a minha estadia em Damão. E recordei aquele domingo, 12 de Dezembro de 2004.
Eram seis horas da manhã. O vento soprava fresco e o sol ainda não nascera. Sentia-se a friagem da madrugada. No caminho a pé para a Igreja, foram muitas as pessoas que se me dirigiram em português, dando-me os bons dias. Não as conhecia e retribuí os cumprimentos com aquela timidez de quem está habituada a passar incógnita nos centros urbanos, onde a saudação é algo que não se destina a estranhos, quanto mais a estrangeiros como eu era, nesse momento.
O intenso movimento de pessoas que se dirigiam a pé, àquela hora da manhã, para a Igreja, provocou-me uma certa curiosidade.
Na véspera perguntara a Conrad, de 8 anos de idade, se ía à Missa no dia seguinte, Domingo, e a que horas. Disse-me que ía à das 6h 15h. Espantei-me pela hora matutina e perguntei-lhe se não havia missas mais tarde, pensando desde logo optar por uma delas.
Disse-me que sim, que havia uma às 10h e outra à tarde mas que a única missa em português era a das 6h15 da manhã. As outras eram em inglês.
“Mas, Conrad, assim tens de te levantar às 5h30m! Não ficas com sono? Ou vais dormir depois da Missa?”, indaguei.
Respondeu-me com aquele largo sorriso de criança, que não, que “ía à Missa das 6h15 porque gostava mais da Missa em português” e que “não ficava com sono nem ía dormir depois da Missa porque era “holliday” e queria brincar o dia todo por não ter escola”.
A Igreja, ampla, estava literalmente cheia de crianças, jovens, adultos e idosos de ambos os sexos. Nunca pensei que tal acontecesse àquela hora e isso impressionou-me. Não era dia de festa especial. Era um domingo comum, normal. Fiquei a saber que era assim todos os domingos, na missa das 6h 15m, em Damão.
Dos cânticos da assembleia à homilia, do Pai Nosso à Eucaristia, a língua materna ouvida assim em terra tão longínqua comoveu-me e confundiu-me. As orações foram rezadas em uníssono por quem estava habituado a fazê-lo com devoção, sem hesitações nem silêncios, percebendo-se por isso que frequentava normalmente a celebração dominical em português. Foi uma celebração eucarística gratificante nas suas dimensões humana, cultural, religiosa e espiritual.
Congratulei-me por ter optado pela madrugada. Estava em casa!
Não cabe aqui em espaço o muito que teria para dizer sobre o que me impressionou em Goa e, particularmente, em Damão.
Mas é espantoso o número de pessoas que falam português fluentemente e a satisfação genuína que sentem e manifestam quando nos identificam como portugueses.

Na Igreja ou no mercado, nas ruas, nas escolas ou nas praias, o português é ouvido a par do inglês, hindi e, no caso de Damão, do Gujarati, a língua local. Falado com correcção quando a ocasião assim o exige, nas conversas correntes do dia-a-dia surgem, no meio das frases em português, aleatoriamente, termos ingleses, como aconteceu com a referência de Conrad ao “holliday” ou de Jacintinho, de 4 anos, que em correcto português rejeitou a minha insistente oferta de uma bola “porque tinha muitos “toys” em casa e comprar mais um seria um “desperdício”(sic).
Integrados na Nação Indiana, aculturados mas sem perderem as raízes, a identidade e a memória que tentam preservar de uma forma comovente e persistente, Goeses e Damanenses ancoram-se na língua que, transmitida de pais para filhos e netos os une, acima de tudo, através daquele elo invisível que não se ensina nem sabe explicar. Mas que nos permite, na Índia, em Portugal ou em qualquer lugar, sentirmo-nos unidos como irmãos.
“Quando os Portugueses partiram, a Igreja ficou” (Miguel Sousa Tavares, em Sul, Viagens).
Sem juízos de valor, históricos, geográficos, políticos, religiosos ou morais, indubitável e marcante foi o sentimento quase palpável de tantos goeses ou damanenses que, sem rejeitarem a sua jovem nação, mantêm a alma portuguesa na língua que partilham com orgulho e na Fé que praticam com devoção.
Não bastam as marcas que a História petrificou em igrejas, casas coloniais, fortalezas e praças, estátuas e memoriais e, de forma mais indelével, na toponímia e na pintura, para manter viva a memória e a cultura que nos liga para além das fronteiras, da língua, da religião e dos afectos.
A força comovente e visível da memória portuguesa que me foi dada a observar em Goa e em Damão (não cheguei a ir a Diu), implica as entidades oficiais no esforço mútuo de cooperação e de desenvolvimento do intercâmbio cultural. Porque não é suficiente a persistência quase insana e solitária das comunidades locais em preservar as raízes da sua memória histórica e cultural.
Esta está-nos indubitavelmente associada, quer queiramos quer não. Impõe-se-nos, por isso, o dever histórico de não nos esquecermos e o comprometimento moral de perpetuarmos a memória da nossa presença através de dimensões enriquecedoras e edificantes, quer no domínio da cultura quer no da solidariedade, onde o espírito de servir e de missão adquirem o seu verdadeiro sentido.
Os goeses e damanenses, aqueles que, a par das línguas oficias e locais, comunicam entre si e connosco em língua portuguesa, podem ser uma minoria dentro da numerosa população da Nação Indiana.
Mas é uma minoria com muita identidade, uma identidade que não tem fronteiras e que nem a comunidade da língua chega para explicar.
É algo como que uma fé que vai para além da fé religiosa, uma espécie de fé em nós como um todo, uma fé ecuménica, universal, assente no facto de continuamos ligados pelas mesmas raízes que alimentam a nossa esperança e desígnios comuns e partilhados. Até quando? Não sei. Mas quem por lá passou sabe o quão doloroso é o sentir-se esquecido e deixar-se esquecer, face à indiferença de um povo que até já foi o mesmo.
Valeu a pena regressar a Damão, onde já tinha estado, e não optar por ficar em Bombaim, que já conhecera.
 Vale a pena não esquecermos que lá existe uma casa portuguesa, com certeza.
Nem que seja só aquela onde Bocage viveu.
E que queremos e devemos preservar em conjunto, como parentes que fomos e somos, o património histórico e cultural que nos une. Sempre.

Casa onde viveu Bocage, em Damão.