13.11.12

6.11.12

As Fontes

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

As Fontes, de Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia



21.10.12

SILÊNCIO DE OIRO

O poder e a carga do silêncio
valem um mundo.
E é aí que se instala e vive
a magia e o encanto
que nos toca
e surpreende.




15.10.12

SEMPRE NA PICADA



Foi o fim da picada.
A vida,  sempre imprevisível, assim o decidiu.
Estava tudo preparado para eu participar, profissional e pessoalmente, em mais uma nova e gratificante viagem de aventura, a do 6º Raid Todo-o-Terreno do Kwanza Sul, em Angola. Iria reviver, com mais sabedoria e intensidade, a experiência do 3º Raid mas, agora,  Rumo às Terras do Fim do Mundo, cumprindo-se assim o desígnio e objetivo de se visitar, nos seus locais mais remotos, belos e inacessíveis, as 18 províncias angolanas.
Mas eis senão quando, de repente e abruptamente, tudo cai por terra e vejo-me, num ápice, a caminho de outras e bem diferentes terras de fim do mundo, metaforicamente falando, em razão de um mundo que me fugiu da mão e que me deixou repentina e totalmente desprogramada e sem quaisquer referências ou coordenadas. Um fim de mundo que não é bonito nem aprazível de se visitar, sentir e vivenciar, ao contrário deste que aqui se desvela. Mas que se revelou, por isso mesmo, o lado de lá do espelho, um importante, salutar e fértil terreno de reflexão, com tempo demais no pouco tempo que sobra. Tão rico, misterioso e vasto como o belo deserto do Namibe.
Desviei-me da rota, por isso, sem saber como nem porquê. Passou por mim, assustador,  o meu Adamastor.
Tento agora dobrar o cabo e sair desta tormenta e picada infernal, desviando-me e esmagando todos os caranguejos que me consomem e fazem-me patinar. Aguento-me. Não há atascanço, seja na areia, lama,  água ou rocha,  que me detenha  nesta luta e empreendimento. Também este será superado. E chegará o dia em que  retomarei o meu rumo e  retornarei às  belas e aliciantes picadas das descobertas da vida que me enchem a alma.
Por ora, resta-me revivê-las através de outros olhares e sentires, como é o caso.  Volto a viver nos registos e  imagens  dos companheiros e amigos desta aventura especial e única, aquilo que de indizível senti e sentirei sempre em África e, particularmente, neste contexto concreto, em Angola, nos Raids TT do Kwanza Sul.
A interessante reportagem da RTP1 que se segue, com magníficas imagens e curiosos registos, aborda  momentos de muitos dias e quilómetros vividos no 6º Raid,  de entre os muitos mais que houve de revelação e de beleza estonteante  relevada pelo espírito de aventura e  de descoberta , de camaradagem e de partilha, de adrenalina e  boa disposição, de amizade e  solidariedade, de despojamento e de abertura, de saber e de cultura que caracteriza a alma de viajante da equipa dos promotores, organizadores , patrocinadores e  participantes desta iniciativa singular, feita de memórias e laços inolvidáveis, de História e de estórias individuais e comuns, quer nas suas origens, quer nos seus meios, fins e resultados.

De facto, os Raids TT do Kwanza Sul surgem na sequência de um  acordo de cooperação estabelecido entre o  Governo da Província do Kwanza Sul  e o Município de Almada, no âmbito de um protocolo de geminação existente desde 1997 entre este município português e o município angolano de Porto Amboim,  e inscrevem-se no quadro da cooperação técnica para a promoção do turismo em Angola. Esta sua génese, tão distinta das que resultam dos habituais pacotes turísticos das agências de viagens, imprimiu uma dimensão institucional e técnica relevantes, quer ainda no tempo da guerra civil, onde o foco, a par do turismo, era a mobilização para o apoio solidário junto das populações mais distantes, carenciadas e isoladas, quer posteriormente, quando se focaliza a importância do desenvolvimento solidário e sustentável, estimulando as potencialidades  das economias locais através da promoção de um turismo, nas suas diversas modalidades, amigo do ambiente.

Neste contexto, quando se realizou o 1º Raid, em 2005, só era possível percorrer Angola em viaturas “todo-o-terreno”, bem resistentes e equipadas para todo o tipo de adversidades das estradas esburacadas e das picadas que existiam nessa altura em resultado da guerra e que assim se mantiveram até, pelo menos, 2008. 

Hoje, a realidade angolana é bem diferente e as estradas asfaltadas cortam o país de norte a sul e já em muitas direcções, pese embora a imensidão do território, pelo que a necessidade objectiva no uso corrente de viaturas “todo-o-terreno” nas suas estradas entretanto reconstruidas e que ligam as principais cidades, é bem mais relativa.  Mas, apesar disso, o espírito que presidiu à origem dos Raids TT do Kwanza-Sul consolidou-se  naquilo que de mais aliciante tem e que o distingue do dos padrões e sofisticação do turismo tradicional: o de se manter como expedição e conseguir experiências únicas que, pela aventura que encerram, despertem uma nova atitude e um  novo olhar sobre a realidade, a natureza e as pessoas, levando os participantes a lugares com História e estórias mas também a lugares  diferentes, recônditos e distantes, onde o convívio  com as populações locais, o conhecimento ou percepção da sua cultura ancestral e o usufruto da deslumbrante natureza ainda não desbravada e intocada -  onde o imprevisível e o imprevisto latentes despertam resistências adormecidas e desafiam as mais esquecidas capacidades de sobrevivência - resulta em experiências pessoais únicas e inesquecíveis, em várias dimensões.

Fica  a  reportagem da RTP 1  como testemunho e o ponto de vista pessoal e registos de quem participou neste 6º Raid.

Nele  estive diária e virtualmente presente e envolvida, porque é igualmente meu lema, mais do que nunca agora,  o grito uníssono SEMPRE NA PICADA. Com toda a carga e possibilidades metafóricas que, estimulantemente, dele emergem.
Desvelo, assim e aqui, no meu espaço, um pouco mais dos meus sentires impulsionados por outros olhares. E reforço a crença na importância dos pontos de vista, de todos os pontos de vista.



Por favor, antes de accionar o vídeo, desligue o som de fundo no final desta página, clicando no sinal II (stop), para que não se sobreponha com os som da reportagem. Obrigada.

Por Terras do Fim do Mundo

"A RTP acompanhou, em Angola, uma expedição de 38 portugueses e angolanos que partiram da província do Kwanza Sul para voltarem às origens, por trilhos todo-o-terreno com o lema "sempre na picada". Em quinze dias foram percorridos 5800 km numa expedição cheia de aventuras ao volante de 16 viaturas todo-o-terreno pelas províncias mais longínquas de um país em reconstrução.
Entre os locais visitados, destaque para a entrada no extremo sul, o Bico de Angola, na fronteira com a Zâmbia e Namíbia . E aí , a visita às ruínas do que já foi o quartel-general de Jonas Savimbi.
Marcante foi também a chegada ao Cuito Cuanavale , onde foi travada a segunda maior batalha , uma das mais sangrenta , de toda a África.
Inesquecíveis, as paisagens naturais do Lubango como a fenda da Tundavala ou o encontro imediato com elefantes da faixa de Caprivi , já na Namíbia.
Dez anos depois do fim da guerra civil, a aventura levou estes 38 "filhos da terra" a redescobrir trilhos de difícil acesso, por 18 províncias angolanas. Esta foi a sexta edição do Raid Kwanza Sul, que vem somando todas as províncias de Angola desde 2005.
Completados estão, com esta edição, os quatro cantos do país, sendo todos testemunhas privilegiadas das muitas transformações que estão a acontecer em Angola.
Entre os raidistas presentes, Miguel Anacoreta Correia - Secretário Geral da UCCLA , o gestor Pedro Norton de Matos bisneto do general Norton de Matos e  representantes do protocolo de cooperação estabelecido entre a Câmara Municipal de Almada e o Governo da Província angolana do Kwanza Sul.
A autoria da reportagem é da equipa: Jornalista Diana Palma Duarte, com as imagens do repórter de imagem António Antunes e a montagem do editor de Imagem Pedro Pessoa. "

As capas das 4 edições (Pangeia e Chá de Caxinde), dos livros dos 3º, 4º, 5º e 6º Raid TT do Kwanza Sul, onde tudo se conta e consta.






























28.9.12

22.9.12

HOJE!

O Paradoxo do Nosso Tempo


"Bebemos demais, fumamos demais, gastamos sem critérios, conduzimos rápido demais, ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos muito cansados, lemos muito pouco, vemos TV demais e rezamos raramente.

Multiplicamos os nossos bens, mas reduzimos os nossos valores.

Falamos demais, amamos raramente, odiamos frequentemente.

Aprendemos a sobreviver mas não a viver. Adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos.

Fomos e voltamos à Lua, mas temos dificuldade em cruzar a rua para cumprimentar o nosso vizinho.

Conquistamos o espaço sideral mas não o nosso próprio espaço.

Fizemos muitas mais coisas, mas pouquíssimas melhores. Limpamos o ar, mas poluímos a alma. Dominamos o átomo mas não o nosso preconceito. Escrevemos mais, mas aprendemos menos. Planeamos mas realizamos menos.

Aprendemos a nos apressar e não a esperar.

Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir cópias como nunca, mas comunicamos menos entre nós.

Estamos na era das refeições rápidas e da digestão lenta. Do homem grande mas de caráter pequeno. Dos lucros acentuados e das relações vazias.

Esta é a era dos dois empregos, dos vários divórcios, das casas de luxo e lares despedaçados. Esta é a era das viagens rápidas, das fraldas e moral descartáveis, das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas mágicas.

Um momento de muita coisa na vitrine e de muito pouco na despensa. De armários cheios e corações vazios.

Lembremo-nos de passar tempo com as pessoas que amamos, pois elas não estarão por aqui para sempre.

Lembremo-nos de dar um abraço carinhoso a um amigo, pois não nos custa nem um centavo.

Lembremo-nos de dizer "amo-te" ao nosso companheiro(a) e às pessoas que amamos mas, em primeiro lugar, amemos. Amemos muito.

Um beijo e um abraço curam a dor, quando vêm de dentro de nós.

O segredo da vida não é ter tudo que queremos, mas AMAR tudo o que temos!

Por isso, valorizemos o que temos e as pessoas que estão ao nosso lado.

HOJE!"

George Carlin
















3.9.12

ODE

Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
           De rosas -
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
           Tão cedo!
Coroai-me de rosas

E de folhas breves
           E basta.

Ricardo Reis, Ode

2.9.12

ORAÇÃO

A Caminhada

À minha frente caminho inexiste
Atrás de mim caminho se faz
Oh, natureza
Oh, meu pai
Imenso pai que me fizeste ser eu próprio
Não tires de mim teus olhos e protege-me
Enche meu coração com teu vigor de pai

Para o fim desta longa caminhada
Para o fim desta longa caminhada
Para o fim desta longa caminhada
Para o fim

Poema A Caminhada, de Takamura Kôtarô
[Trad. do Japonês por António Nojiri, in Poesia Japonesa, págª 121]

1.9.12

ESTÓRIAS DO FIM DO DIA

Este vídeo é fundamental para a percepçáo da mensagem, pelo que deve
ser accionado no início da visualização das fotos.
Quando o fizer, por favor, desligue a música de fundo do blogue,
clicando em II, no final da página, para não haver sobreposição de sons.Obrigada.